O que você não pode ficar sem conhecer (na minha opinião)?
Sugestão de roteiro: Sexta, Sábado e Domingo
SEXTA EM ALTO PARAÍSO
- Pousada Canto dos Pássaros
- Pousada Dente de leão
- Pousada Rubi violeta
- Cachoeira Loquinhas cedo, almoçar e descansar,
- Ir para o rumo de São Jorge e vsitar o Vale da lua a tarde.
- Saindo de lá assistir o pôr-do-sol no Jardim de Maytrea/Baleia e tirar fotos sensacionais no Mirante do Jardim de Maytrea
- Cantinhos das Delícias (preço muto bom)
- Zus Bistrô,
- Namastê Chapada (comida indiana típica)
- Contratar um guia e visitar o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (PNCV) ou a Fazenda São Bento e conhecer a Cachoeira São Bento e Almécegas I e II ou fazer o Vôo do Gavião (tirolesa)
- Visitar a vila de São Jorge a noite e jantar
- Saltos do Rio Preto + Corredeiras: imperdível. É provavelmente o circuito mais emblemático. Você passa pelo mirante do Salto de 120 m, depois pela Cachoeira do Garimpão, de 80 m, onde existe área para banho, um conjunto de cânions e quedas, e pelas Corredeiras, com piscinas naturais. O circuito completo tem aproximadamente 11 km, dura 6–7 horas e é classificado atualmente pelo Parque como dificuldade moderada superior, com trechos íngremes e pedregosos.
- Cânion II + Cachoeira das Cariocas: O caminho é mais plano que o dos Saltos, embora continue bastante pedregoso. O Cânion II forma um enorme corredor rochoso no Rio Preto, com um grande poço para banho. Cerca de meia hora adiante fica a Cachoeira das Cariocas, com várias quedas e piscinas naturais. O circuito tem cerca de 11 km, leva 4–5 horas e é considerado de dificuldade moderada.
- Trilha da Seriema: curtinha e tranquila. São apenas 850 metros ida e volta, em terreno predominantemente plano, com cerca de 1h30 de passeio. Ela leva ao Córrego Preguiça e é a alternativa do Parque para quem quer uma caminhada leve. Há uma particularidade importante: como o córrego é sazonal, a Seriema fica indisponível durante a seca, de junho a outubro. Portanto, em setembro, não conte com ela.
DOMINGO
- Cachoeira Poço encantado, 50km de Alto Paraíso. Descansar, Almoçar por lá (preparar o bolso pois, apesar de ser uma delícia, é caro o almoço). Sugestão: já pedir o almoço antes de descer pra cachoeira. Demora a ficar pronto. Setembro 2026: R$ 60 o valor da entrada na cachoeira.
- A tarde: visitar a cachoeira dos Cristais.
- Na volta, pegar à direita e pegar o caminho da entrada do aeroporto (tem placa) para assistir ao pôr-do-sol ou ir de madrugada ver a via láctea.
Minhas dicas de locais para se visitar:
- Gratuito. Jardim de Maytrea indo para São Jorge: Tem um mirante. Leia mais sobre
- Gratuito. Morro da Baleia: Avistável do mirante do Jardim de Maytrea. Leia mais sobre
- Gratuito. Morro do buracão: Em frente ao jardim de Maytrea e próximo ao Morro da Baleia.
- Vale da Lua:
- Cachoeira e Santuário Loquinhas
- Cachoeira dos Cristais:
- Tirolesa Vôo do Gavião na Fazenda São Bento. 850m de tirolesa a 50km/h.
- Poço Encantado indo para Teresina de Goiás:
- Gratuito. Pôr-do-sol no Aeroporto e avistamento do céu de madrugada
- Gratuito. Povoado Moinho e a estrada que liga Alto Paraíso ao Moinho: ir de 4x4
- Gota Sat Som em Alto Paraíso: https://www.facebook.com/gotasatsom/ R$ 50
- Gratuito. Horoscopo Maia da Nega, na sua mega loja de artesanatos em frente ao CAT. A loja chama Arte Nossa. Falar que foi indicação do Fred Lobo.
- Restaurante Namastê Chapada: comida indiana. Pedir a bebida Sherbat (de rosas):
- Restaurante Cantinho das Delícias com as massas e pizzas feitas pela mama Suzan, uma famosa cozinheira e alquimista da chapada: https://www.facebook.com/cantinhodasdeliciasreal/ É minha mãe "adotiva" e que cuidou de mim enquanto estive lá. Falar que foi indicação do filho dela: Fred Lobo. Preço excelente
- Risoto de frango com pequi no Zus Bistrô:
- Pastel de frango com pequi na Vendinha 1961:
- Risoto Sensação do cerrado na Risoteria Santo Cerrado em São Jorge:
- Os artesanatos na Galeria de Arte Preguiça em São Jorge e em Alto Paraíso:
- Gratuito. Foto com os ETs no Grande hotel e esculturas egípcias:
- Gratuito. Foto com ET na loja Abduzidos:
- Gratuito. Feira do Produtor Rural de Alto Paraíso: Sábado: de 07h às 12h. Há uma variedade de pratos veganos e alguns shows.
- Gratuito. Feira Popular da Agricultura Familiar de Alto Paraíso: acontece aos domingos cedo, na praça do Turísta Proximo ao CAT - Centro de Informações ao Turista. Localizada na Av Ary Valadão, no setor Central em Alto Paraíso. Focada em produtos orgânicos e com programação cultural.
- Cachoeira do Segredo: trilha pesada.
- Boia cross no rio dos couros no Vale Dourado: https://www.tripadvisor.com.br/ShowUserReviews-g2159104-d8611761-r311809234-Santuario_Ecologico_Vale_Dourado-Alto_Paraiso_de_Goias_Chapada_dos_Veadeiros_Na.html
- Tirolesa na Fazenda São Bento: https://www.pousadasaobento.com.br/novo/portfolio-item/tirolesa-voo-do-gaviao/
- Águas termais em Colinas do Sul
A história mística da Chapada dos Veadeiros: dos povos ancestrais aos gurus, cristais, profecias e buscadores do século XXI
A história mística da Chapada dos Veadeiros não começa com extraterrestres, cristais energéticos ou comunidades da Nova Era. Muito antes disso, havia um território de serras, chapadões, vales profundos, rios e nascentes que condicionava a maneira como seus habitantes se relacionavam com o mundo.
O que hoje chamamos de Chapada dos Veadeiros integra uma porção elevada do Planalto Central e preserva alguns dos ambientes mais representativos do Cerrado. Sua diversidade de altitudes, campos rupestres, veredas e cursos d’água contribuiu para uma extraordinária biodiversidade, reconhecida internacionalmente pela UNESCO.
A origem do nome
Ao longo dos séculos, porém, essa mesma paisagem recebeu interpretações muito diferentes: para populações tradicionais, foi lugar de moradia e sobrevivência; para garimpeiros, território de ouro e cristal; para ambientalistas, patrimônio a proteger; e para os movimentos espiritualistas do século XX, um cenário ideal para imaginar centros energéticos, portais e uma nova humanidade. Para compreender Alto Paraíso, portanto, é preciso começar pela terra — e não pelos mitos que posteriormente foram projetados sobre ela.
O nome Chapada dos Veadeiros está ligado à antiga presença abundante de veados-campeiros na região, mas existe um detalhe histórico interessante: “veadeiro” não significava necessariamente o próprio veado.
Uma das explicações mais bem documentadas afirma que veadeiro era o cão treinado para farejar e perseguir veados durante as caçadas. A palavra aparece inclusive em dicionários com esse significado: “cão adestrado para a caça ao veado”.
Na região, especialmente a partir do século XVIII, havia grande quantidade de veados-campeiros (Ozotoceros bezoarticus). Há relatos históricos de caça desses animais tanto pela carne quanto pelo couro, que possuía valor comercial. Uma pesquisa da Universidade de Brasília registra que, por volta de 1750, a localidade onde se estabeleceu Francisco de Almeida passou a ser conhecida como Veadeiros, em referência justamente aos cães utilizados para perseguir os veados durante as caçadas.
Existe, porém, uma segunda tradição histórica: documentos ligados ao IBGE dizem que o povoado recebeu o nome simplesmente pela grande quantidade de cervídeos existentes na região. Ou seja, as duas versões estão relacionadas e provavelmente refletem o mesmo contexto: muitos veados + intensa atividade de caça ao veado.
Isso também ajuda a entender uma curiosidade importante: antes de se chamar Alto Paraíso de Goiás, a cidade chamava-se Veadeiros. O povoado tornou-se município com esse nome em 1953. Somente pela Lei Estadual nº 4.685, de 15 de outubro de 1963, passou oficialmente a se chamar Alto Paraíso de Goiás. O nome regional Chapada dos Veadeiros, entretanto, permaneceu.
Os povos indígenas e as primeiras histórias humanas da região
Séculos antes da formação de Cavalcante, Veadeiros ou Alto Paraíso, diferentes povos indígenas habitavam ou circulavam pelo atual nordeste goiano. A história oficial do município menciona grupos identificados nas fontes históricas como Cayapós, Xavantes e Guayazes, embora as classificações utilizadas pelos colonizadores nem sempre correspondam com precisão às identidades étnicas existentes em cada período.
Essas populações conheciam profundamente as estações, os animais, as plantas, as águas e os caminhos do Cerrado. É importante lembrar essa camada da história porque frequentemente a narrativa turística começa com a chegada dos bandeirantes ou, pior ainda, com os esotéricos do século XX. A relação simbólica entre seres humanos e a paisagem da Chapada é muito anterior à chamada Nova Era.
Embora não seja adequado projetar sobre os povos indígenas conceitos modernos como “portal energético” ou “chakra planetário”, também seria equivocado imaginar esse território como vazio até a colonização. Quando os primeiros europeus chegaram, encontraram uma paisagem já conhecida, nomeada, percorrida e culturalmente significada por seres humanos havia incontáveis gerações.
Ouro, Cavalcante e a violência da colonização
A partir do século XVIII, a descoberta de ouro modificou profundamente a ocupação do nordeste de Goiás. Cavalcante surgiu em torno da mineração por volta de 1740 e tornou-se um dos centros coloniais mais importantes da região.
A corrida do ouro trouxe bandeirantes, mineradores, comerciantes e, inseparavelmente, o trabalho compulsório de africanos escravizados. A história da Chapada, portanto, também está vinculada à escravidão e às desigualdades que estruturaram a mineração colonial.
À medida que lavras eram abertas e caminhos passavam a conectar arraiais distantes, pequenas propriedades rurais surgiam para fornecer alimentos, animais e outros produtos aos centros mineradores. O território onde posteriormente se desenvolveria Veadeiros fazia parte dessa rede econômica. A imagem contemporânea de um “paraíso” não deve apagar essa dimensão histórica.
A Chapada foi cenário de exploração mineral, escravização e resistência, ao mesmo tempo em que sua geografia acidentada criava áreas de difícil acesso onde populações fugitivas poderiam sobreviver longe do controle direto dos grandes centros coloniais.
Os Kalunga e a construção de um território de liberdade
É nesse contexto que se forma uma das histórias humanas mais extraordinárias da Chapada dos Veadeiros: a do povo Kalunga. Descendentes de africanos escravizados e de seus descendentes que encontraram abrigo nas serras, vãos e vales do nordeste goiano, os Kalunga construíram comunidades que permaneceram durante longos períodos relativamente isoladas dos centros urbanos.
O atual território Kalunga distribui-se principalmente pelos municípios de Cavalcante, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás, integrando cultural e geograficamente a região da Chapada dos Veadeiros. Pesquisas acadêmicas destacam que o próprio relevo — com serras, rios, desfiladeiros e caminhos difíceis — contribuiu para preservar essas comunidades e seus modos de vida.
O isolamento nunca significou ausência de história; ao contrário, permitiu a manutenção de redes familiares, agricultura tradicional, saberes sobre o Cerrado, festas, narrativas e formas próprias de organização. Reconhecer os Kalunga impede que a espiritualidade da Chapada seja narrada como uma invenção dos migrantes urbanos que chegaram no século XX.
Essa região tem paisagens belíssimas. Em 2008 quando médico em Alto Paraíso, fui convocado para participar de um curso em Campos Belos, município depois de Cavalcante, rumo ao Tocantins. Durante a viagem, fiquei maravilhado com as paisagens.
A espiritualidade Kalunga muito antes da Nova Era
A relação dos Kalunga com o sagrado desenvolveu-se de maneira profundamente ligada à comunidade, aos ancestrais, à terra e aos ciclos agrícolas. Suas celebrações incorporaram elementos do catolicismo popular em diálogo com memórias e referências culturais africanas transmitidas por gerações.
Romarias como a de Nossa Senhora da Abadia, no Vão de Almas, são simultaneamente acontecimentos religiosos, familiares, culturais e comunitários. O IPHAN registra que essas celebrações articulam devoção, folia, ancestralidade e agradecimento pela terra que sustenta a comunidade.
É uma espiritualidade muito diferente daquela que décadas depois chegaria a Alto Paraíso por meio da Teosofia, do esoterismo, do hinduísmo ocidentalizado ou da Nova Era. Colocar essas tradições lado a lado não significa dizer que sejam equivalentes, mas reconhecer que a Chapada já possuía uma dimensão sagrada muito antes que visitantes urbanos começassem a descrevê-la como “chakra da Terra”.
A história mística da região fica mais rica quando o sagrado tradicional não é apagado pelo exotismo dos gurus posteriores.
Veadeiros: fazendas, agricultura e o primeiro núcleo da futura cidade
Enquanto Cavalcante prosperava com a mineração, propriedades rurais começaram a ocupar as terras onde surgiria Alto Paraíso. O povoado inicialmente conhecido como Veadeiros teria se desenvolvido a partir de fazendas ligadas a nomes como Francisco de Almeida e outros proprietários mencionados pela história municipal. Agricultura e pecuária abasteciam os núcleos mineradores.
A prefeitura registra ainda um curioso episódio relacionado ao trigo: sementes teriam sido introduzidas no final do século XVIII, e a produção local posteriormente alcançou alguma notoriedade. A imagem de Veadeiros naquele período era muito diferente da atual avenida repleta de pousadas, restaurantes vegetarianos, terapias, cristais e símbolos orientais. Tratava-se de um pequeno núcleo rural inserido em uma região de comunicação difícil.
Essa longa fase agrária é importante porque muitos dos confrontos e encontros culturais posteriores ocorreriam justamente entre descendentes dessa população tradicional e os “de fora” — espiritualistas, alternativos, ambientalistas, turistas e profissionais liberais que chegariam em ondas sucessivas durante a segunda metade do século XX.
A Comissão Cruls e o Planalto Central entrando no imaginário nacional
No final do século XIX, o interior do Brasil adquiriu novo significado político. A Comissão Exploradora do Planalto Central, conhecida como Comissão Cruls, percorreu extensas áreas para estudar a região onde poderia ser instalada uma futura capital federal.
A história de Alto Paraíso registra a passagem desse processo pelo Pouso Alto, uma das maiores elevações do Planalto Central. O que naquele momento era sobretudo uma investigação geográfica e estratégica adquiriria posteriormente uma dimensão simbólica. O centro do Brasil começava a aparecer como território de futuro: local de integração nacional, modernização e construção de uma nova capital. Décadas depois, espiritualistas reinterpretariam essa centralidade geográfica como centralidade espiritual.
A transformação é fascinante: mapas, altitudes e coordenadas originalmente utilizadas por exploradores e engenheiros seriam incorporados a narrativas sobre geografia sagrada, paralelos especiais e centros energéticos. Ainda não existia o misticismo moderno de Alto Paraíso, mas estava sendo preparado um dos elementos fundamentais que o tornariam possível: o imaginário do Planalto Central como lugar destinado ao futuro do Brasil.
O cristal transforma a Baixa dos Veadeiros em São Jorge
No século XX, outro mineral ajudaria a moldar a história da região: o cristal de quartzo. O atual povoado de São Jorge teve suas origens estreitamente ligadas ao garimpo. Conhecido anteriormente como Baixa ou Baixa dos Veadeiros, recebeu trabalhadores atraídos pela exploração de cristal, especialmente em períodos de grande demanda internacional.
O quartzo natural possuía aplicações importantes na indústria eletrônica, comunicações e equipamentos utilizados durante o período das guerras mundiais. A atividade alcançou grande relevância econômica e formou uma comunidade de garimpeiros em condições bastante precárias, com pouca infraestrutura e forte dependência das oscilações do mercado.
No início da década de 1950, o povoado passou a ser chamado São Jorge, e a devoção ao santo tornou-se parte da identidade dos moradores. É uma ironia histórica significativa: décadas depois, o mesmo cristal que os garimpeiros arrancavam da terra como mercadoria seria reinterpretado pelos novos habitantes como instrumento de cura, amplificador de energia e símbolo espiritual da Chapada.
Brasília, Dom Bosco e o nascimento de uma geografia profética
A construção de Brasília transformou definitivamente o Planalto Central. Além do enorme impacto político, econômico e demográfico, a nova capital adquiriu rapidamente um imaginário místico próprio. Um dos elementos mais conhecidos foi a interpretação brasileira do sonho de Dom Bosco, sacerdote italiano que, em 1883, descreveu em uma visão uma região da América do Sul situada entre determinados paralelos, onde surgiria uma terra de grande prosperidade.
Juscelino Kubitschek conhecia e valorizava essa narrativa, e Brasília acabou sendo associada à chamada “Terra Prometida”. Pesquisadores ressaltam, entretanto, que ligar diretamente a visão a Brasília é uma interpretação posterior, não uma identificação feita pelo próprio Dom Bosco.
A força simbólica dessa narrativa foi enorme. Brasília atraiu movimentos religiosos, esotéricos e espiritualistas, e essa efervescência irradiou-se para a Chapada. A pesquisa histórica sobre Alto Paraíso conclui que a mística de Brasília influenciou diretamente a região, embora a Chapada desenvolvesse posteriormente um universo simbólico próprio.
1953: Veadeiros conquista sua emancipação
Em 1953, Veadeiros separou-se administrativamente de Cavalcante e tornou-se município. O acontecimento parece estritamente político, mas é fundamental para entender tudo o que ocorreria na década seguinte.
A nova autonomia municipal coincidiu com um período de profundas transformações no Centro-Oeste: construção de Brasília, abertura de estradas, migrações e crescente interesse pelo interior do país. Veadeiros ainda era uma pequena comunidade rural, muito distante da cidade cosmopolita que surgiria décadas depois.
Entretanto, a emancipação permitiu que políticas, projetos e instituições passassem a se desenvolver em escala municipal. Em poucos anos, chegariam uma comunidade esperantista internacional, um grande projeto espírita, a criação do Parque Nacional e até uma mudança de nome que, involuntariamente ou não, parecia perfeita para a futura vocação mística do lugar.
Quando se observa retrospectivamente, a década entre 1953 e 1963 parece quase uma preparação para a transformação cultural que viria posteriormente.
1957: Bona Espero e a primeira grande experiência comunitária moderna
Em 1957, um grupo de esperantistas criou na região a Fazenda-Escola Bona Espero, instituição humanitária voltada originalmente ao acolhimento e à educação de crianças em situação de vulnerabilidade.
O Esperanto havia nascido no final do século XIX com o ideal de funcionar como língua internacional capaz de facilitar a comunicação entre os povos, e esse universalismo combinava com projetos comunitários e pacifistas do pós-guerra. A própria Bona Espero informa que centenas de crianças foram acolhidas e alfabetizadas ao longo de sua história.
A Prefeitura de Alto Paraíso considera a instituição pioneira no processo que posteriormente atrairia grupos espiritualistas à região, embora seja importante não transformar Bona Espero em uma “seita esotérica”: sua identidade histórica é principalmente esperantista, educacional e humanitária.
O significado maior está no modelo de vida comunitária. Antes dos hippies e da Nova Era, já havia ali pessoas vindas de outros lugares tentando construir uma experiência baseada em cooperação, educação, fraternidade internacional e contato com a natureza.
1961: nasce o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros
Em 11 de janeiro de 1961, foi criado o então Parque Nacional do Tocantins, embrião do atual Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Sua área seria modificada várias vezes nas décadas seguintes, assim como sua denominação, mas a criação da unidade estabeleceu uma nova lógica para a região. Terras antes vistas principalmente como espaço para mineração, criação de animais ou agricultura passaram também a ser entendidas como patrimônio natural a ser preservado.
A relação com os garimpeiros de São Jorge não foi simples, já que a proteção ambiental restringiu atividades das quais muitas famílias dependiam. Ao longo das décadas, entretanto, o parque se tornaria um dos motores do ecoturismo e transformaria antigos garimpeiros e seus descendentes em guias, anfitriões e defensores do território.
Essa mudança econômica ocorreria paralelamente à mudança simbólica dos cristais: de recurso mineral para símbolo místico. Atualmente o parque é um dos principais pilares da identidade da Chapada e possui sucessivos decretos de criação, redução e ampliação de seus limites.
1963: Veadeiros passa a se chamar Alto Paraíso de Goiás
Dez anos após a emancipação, ocorreu uma mudança que teria enorme força simbólica no futuro. Em 1963, Veadeiros recebeu oficialmente o nome de Alto Paraíso de Goiás. Segundo a história divulgada pela prefeitura, vereadores apresentaram propostas e venceu a sugestão relacionada a uma propriedade chamada Fazenda Paraíso, situada em uma região mais baixa; o antigo núcleo urbano seria, portanto, o “Paraíso no alto”.
O nome não nasceu de uma profecia New Age nem de um guru, mas posteriormente pareceu feito sob medida para a identidade espiritual que a cidade desenvolveria. Quando movimentos esotéricos começaram a divulgar a região como refúgio para uma nova humanidade, “Alto Paraíso” passou a funcionar quase como uma marca involuntária.
A expressão ajudava a reforçar ideias de elevação, refúgio e transcendência. É um excelente exemplo de como um fato administrativo banal pode adquirir, décadas depois, uma poderosa interpretação cultural.
1963: a Cidade da Fraternidade estabelece uma comunidade espírita na Chapada
No mesmo ano da mudança de nome foi fundada a Cidade da Fraternidade (CIFRATER), em 20 de dezembro de 1963. Vinculada ao Movimento da Fraternidade Espírita e à OSCAL, estabeleceu sua comunidade rural na Fazenda Paraíso, às margens da atual GO-118. Diferentemente dos grupos da Nova Era que chegariam depois, tratava-se de uma experiência explicitamente cristã-espírita, inspirada pelo espiritismo kardecista e por ideais de fraternidade.
A comunidade desenvolveu projetos educacionais, assistenciais e de acolhimento, inclusive o sistema de lares-família e posteriormente o Educandário Humberto de Campos. Documentos do próprio movimento também atribuíam à Chapada uma importância espiritual particular.
A CIFRATER é fundamental para a cronologia porque demonstra que o projeto de construir ali uma comunidade espiritual organizada antecedeu em muitos anos Osho, Maitreya, Saint Germain e os discursos da Nova Era. Ela permanece ativa e constitui uma das instituições espirituais históricas mais duradouras de Alto Paraíso.
O fim do grande garimpo e uma região à procura de novos caminhos
Ao longo dos anos 1960, o garimpo de cristal entrou em declínio. A produção de cristais sintéticos, mudanças no mercado internacional, restrições à mineração e a própria criação do Parque Nacional alteraram profundamente a economia de São Jorge e do entorno. Muitas famílias deixaram a região; outras permaneceram vivendo de agricultura, pequenos trabalhos e da comercialização das pedras que ainda conseguiam encontrar.
O antigo ciclo mineral, entretanto, deixou duas heranças decisivas. A primeira foi humana: São Jorge permaneceu como comunidade formada por famílias de garimpeiros que posteriormente desempenhariam papel central na construção do turismo. A segunda foi simbólica: os enormes veios de quartzo já faziam parte da identidade da Chapada quando os espiritualistas começaram a chegar.
Os novos moradores não precisaram inventar a presença dos cristais; apenas mudaram completamente o significado atribuído a eles. Aquilo que para uma geração havia sido minério e sobrevivência tornar-se-ia para outra um símbolo de vibração, consciência e transformação interior.
Os anos 1970 e a chegada das novas espiritualidades
A década de 1970 introduziu um novo tipo de migrante na Chapada: pessoas que buscavam deliberadamente formas alternativas de espiritualidade e organização social. A pesquisa histórica sobre Alto Paraíso registra nesse período a presença de correntes orientais e menciona inclusive praticantes ligados ao movimento Hare Krishna, que se expandia internacionalmente.
É mais seguro falar em circulação e presença de adeptos do que imaginar um único grande templo ou uma comunidade homogênea. O importante é o contexto: o Brasil recebia yoga, meditação, vegetarianismo, tradições indianas e diferentes formas de espiritualidade que haviam ganhado visibilidade mundial durante a contracultura. A proximidade de Brasília facilitava essa circulação. Alto Paraíso oferecia exatamente aquilo que muitos buscavam: terra relativamente barata, isolamento, rios, natureza e distância simbólica do estilo de vida urbano.
A partir daí, a história deixa de ser marcada apenas por instituições como Bona Espero e CIFRATER e passa a envolver uma população fluida de “buscadores”.
A contracultura encontra o Cerrado
Os novos moradores dos anos 1970 e início dos 1980 não formavam um bloco uniforme. Havia espiritualistas, ambientalistas, vegetarianos, terapeutas, artistas, pessoas influenciadas pelo movimento hippie, defensores de agricultura sem agrotóxicos e indivíduos simplesmente cansados das grandes cidades.
Esse fenômeno deve ser compreendido dentro da contracultura internacional: comunidades alternativas surgiram em vários países como reação ao consumismo, à industrialização e às formas tradicionais de organização familiar e religiosa. Alto Paraíso tornou-se uma versão brasileira desse experimento, mas com características próprias.
Ali, ideias orientais encontravam o Cerrado; vegetarianismo encontrava agricultura comunitária; ecologia encontrava espiritualidade; e moradores tradicionais conviviam com pessoas que chegavam usando roupas incomuns, novos nomes e filosofias pouco conhecidas no interior goiano. Nem sempre a convivência foi simples, mas desse encontro nasceu parte da identidade cultural contemporânea da cidade.
1981: o encontro Rumo ao Sol muda a história alternativa de Alto Paraíso
Um acontecimento fundamental ocorreu em 1981, quando a Fazenda Bona Espero recebeu um Encontro de Comunidades Alternativas, ligado ao movimento chamado Rumo ao Sol. A pesquisa acadêmica registra cerca de 180 participantes. Ali se encontraram tendências muito variadas: espiritualidades orientais, vegetarianismo, agricultura alternativa, terapias, vida comunitária e críticas à sociedade de consumo.
Alguns participantes permaneceram depois do encontro, e a Bona Espero cedeu terras em comodato para uma experiência comunitária. Parte desses moradores acabaria se dispersando, inclusive em direção ao Moinho. O encontro é importante porque representa uma espécie de ponte entre a fase pioneira das comunidades espiritualistas e a explosão New Age que aconteceria nos anos seguintes.
Não havia uma doutrina única. Era justamente o ecletismo que definia aquela geração. Um participante entrevistado décadas depois recordou a convivência de tendências ligadas a Hare Krishna, Rajneesh/Osho, terapias orientais e diferentes graus de vegetarianismo.
1981 e 1982: o Projeto Paraíso aproxima infraestrutura e turismo
Enquanto os alternativos discutiam novos modos de viver, o governo estadual também passou a imaginar outro futuro para a região. Em 1981 começaram as obras do chamado Projeto Paraíso, dentro de um plano de desenvolvimento que pretendia transformar a Chapada em polo turístico e também incentivar produção e industrialização de frutas.
Em 1982 avançou a abertura da GO-239, posteriormente fundamental para o acesso a São Jorge e aos atrativos naturais. Também foram iniciados projetos de aeroporto e edifícios públicos. A morte de Ary Ribeiro Valadão Filho, executor do projeto e filho do então governador Ary Valadão, interrompeu parte dessas iniciativas.
Mesmo assim, a infraestrutura modificou a acessibilidade da região. Esse aspecto aparentemente distante do misticismo foi essencial: nenhuma “capital espiritual” se torna conhecida se permanecer praticamente inacessível. Estradas, comunicação, turismo e proximidade com Brasília permitiram que as narrativas espirituais circulassem, que novos moradores chegassem e que Alto Paraíso começasse a aparecer na imprensa nacional.
1982: a Ordem Mística Iniciática Brahmânica
A partir dos anos 1980, a cronologia espiritual de Alto Paraíso passa a apresentar organizações explicitamente esotéricas. Um levantamento histórico da Universidade Estadual de Goiás registra a chegada, em 1982, da Ordem Mística Iniciática Brahmânica — OMIBRAM.
O grupo possuía orientação ecumênica e espiritualista, inspirada em concepções brahmânicas e em uma proposta de vida comunitária vinculada à natureza. É nesse momento que a Chapada começa a adquirir de forma mais nítida aquela mistura religiosa que posteriormente se tornaria sua marca: elementos orientais reinterpretados por brasileiros, esoterismo ocidental, vida comunitária, ecologia e busca de autoconhecimento.
Algumas dessas instituições permaneceriam por anos; outras desapareceriam rapidamente. Essa volatilidade tornou-se característica da cena mística local. Pessoas chegavam, criavam comunidades, construíam templos, enfrentavam dificuldades materiais ou conflitos internos e eventualmente se dispersavam, deixando edifícios, símbolos, histórias e antigos integrantes incorporados à população da cidade.
Cristais, Paralelo 14 e a criação de uma nova geografia sagrada
Foi principalmente entre os anos 1980 e 1990 que características reais da geografia começaram a receber interpretações cada vez mais esotéricas. A abundância de quartzo passou a ser associada por certos grupos a amplificação de energias, cura e abertura de consciência.
Também ganhou fama o Paralelo 14, linha de latitude que atravessa a região. Tornou-se popular a afirmação de que o mesmo paralelo passaria por Machu Picchu, criando uma suposta ligação espiritual entre os dois lugares. A pesquisa geográfica, contudo, mostra uma correção interessante: Machu Picchu situa-se mais próximo do paralelo 13; o paralelo 14 está associado a outras áreas do Peru, inclusive nas proximidades de Nazca.
Até a conhecida marcação turística do paralelo perto de Alto Paraíso não coincide exatamente com a linha geográfica. Nada disso diminuiu a força do mito. Na Nova Era, coordenadas, cristais e montanhas foram reunidos em uma verdadeira geografia sagrada da Chapada.
1987: chegam os Cavaleiros de Maitreya
Em 1987, aparecem na cronologia pesquisada os Cavaleiros de Maitreya, um dos grupos mais emblemáticos da história mística de Alto Paraíso. Maitreya é originalmente o futuro Buda na tradição budista, mas movimentos esotéricos modernos reinterpretaram a figura dentro de narrativas universalistas sobre a evolução espiritual da humanidade.
Em Alto Paraíso, os Cavaleiros associavam sua missão à preparação para a vinda de Maitreya e aos ensinamentos da chamada Grande Fraternidade Branca, composta, segundo sua crença, por mestres espiritualmente evoluídos que orientariam a humanidade.
O grupo também realizava atividades consideradas de cura. Um depoimento de remanescente registrado em pesquisa acadêmica exemplifica a cosmovisão desse movimento: a região do Planalto Central seria o “chakra cardíaco” do planeta, e os cristais da Chapada potencializariam energias emanadas dali. Trata-se, evidentemente, de crença religiosa e não de afirmação científica, mas seu impacto sobre a identidade local foi profundo.
1988: o Instituto Solarión e a união entre espiritualidade e ecologia
No ano seguinte, 1988, o levantamento histórico registra o Instituto Solarión, instalado em Alto Paraíso como instituição espiritualista, educacional e ambientalista. O grupo promovia cursos e retiros esotéricos e exemplifica algo que se tornaria recorrente na Chapada: a união entre transformação interior e defesa do meio ambiente. A natureza não era percebida apenas como cenário bonito; para muitos desses movimentos, preservar rios, matas e montanhas fazia parte da própria missão espiritual.
O Solarión também ficaria associado ao imaginário ufológico da cidade. Em 1995, uma reportagem da Folha de S.Paulo descreveu o Parque Solarión e chegou a mencionar uma área simbolicamente apresentada como “aeroporto de naves espaciais”, exemplo da maneira como a ufologia, o turismo e o humor passaram a se misturar na cultura local.
A partir dessa época, Alto Paraíso deixava definitivamente de ser apenas uma cidade com grupos religiosos alternativos: sua própria paisagem começava a ser narrada como cenário cósmico.
1991: as Cúpulas de Saint Germain deixam sua marca na paisagem urbana
Em 1991, surgiu a Associação Cúpulas de Saint Germain, ligada aos ensinamentos dos chamados Mestres Ascensionados. O grupo construiu estruturas em formato de cúpula que se tornaram uma das expressões arquitetônicas mais curiosas da fase esotérica da cidade. Segundo estudo histórico, seus integrantes se consideravam “alquimistas da Nova Era” e realizavam rituais de iniciação, recitação de mantras e práticas envolvendo cristais, raízes e essências naturais. As cúpulas eram concebidas pelos adeptos como estruturas capazes de atuar na transmutação e irradiação de energias.
A associação acabou se dissolvendo, e as construções posteriormente entraram em processo de deterioração, mas permaneceram como vestígios materiais daquele período. Isso é particularmente interessante: crenças aparentemente abstratas deixaram concreto, formas, ruínas e memória urbana. Alto Paraíso passou a possuir uma arqueologia recente da Nova Era, composta por templos, domos, monumentos e edificações cuja arquitetura revela as utopias de quem chegou ali.
1991: Vale do Sol, mediunidade e o universo de Dr. Fritz
No início da década de 1990, quando Alto Paraíso de Goiás já atraía comunidades alternativas, espiritualistas, terapeutas e pessoas interessadas em diferentes correntes religiosas e esotéricas, surgiu uma instituição que se tornaria parte importante dessa história: a Associação Holística Vale do Sol.
Os registros cadastrais indicam o início de suas atividades em 24 de setembro de 1991, em Alto Paraíso. A entidade se inseriu em um período de grande crescimento dos grupos místico-esotéricos na Chapada dos Veadeiros, quando a cidade começava a consolidar nacionalmente uma identidade que combinava natureza, espiritualidade, terapias alternativas, ufologia e diferentes concepções sobre a transformação da consciência humana. Pesquisas acadêmicas posteriores incluíram a Associação entre os grupos considerados mágico-religiosos existentes na região.
Uma das características mais marcantes da Associação Holística Vale do Sol era a forte influência do espiritismo, embora suas práticas não se restringissem à doutrina espírita tradicional. Um estudo publicado em 2004 na revista Sociedade e Cultura, da Universidade Federal de Goiás, baseado em pesquisa sobre práticas místicas e esotéricas em Alto Paraíso, registrou que uma das lideranças da Associação afirmava incorporar o espírito do Dr. Fritz.
A figura de Dr. Fritz já era conhecida no imaginário religioso brasileiro por relatos de médiuns que atribuíam a ele curas e procedimentos espirituais. No caso de Alto Paraíso, entretanto, essas ideias passaram a se misturar com elementos característicos da cultura espiritualista que se desenvolvia na Chapada, incluindo concepções sobre seres extraterrestres, evolução planetária e uma transformação espiritual da humanidade. É importante compreender esses relatos como crenças e experiências narradas pelos próprios participantes, e não como fenômenos cientificamente comprovados.
Talvez o episódio mais curioso associado à Vale do Sol seja o projeto de construção de um “hospital interplanetário”. Segundo a liderança entrevistada pelos pesquisadores, Dr. Fritz teria orientado espiritualmente a construção desse espaço em Alto Paraíso.
Na época da pesquisa, a obra já havia sido iniciada e sua base estaria pronta. O local era descrito não como um hospital convencional, mas como um espaço destinado a orações, práticas espirituais e experiências de cura segundo as crenças do grupo. Os depoimentos também relacionavam o projeto a supostos seres de outros planetas e apresentavam Alto Paraíso como um lugar especialmente importante para processos de cura e evolução espiritual.
Essas narrativas ilustram de maneira particularmente clara a fusão entre espiritismo, ufologia e pensamento Nova Era que se tornou uma das marcas de determinados grupos da Chapada durante os anos 1990.
A existência e a atuação concreta da Associação também aparecem na imprensa da época. Em 15 de dezembro de 1994, o jornal Diário da Manhã publicou uma reportagem sobre problemas sociais enfrentados por Alto Paraíso e mencionou diretamente a Associação Holística Vale do Sol, identificando João Peres como seu presidente.
A matéria informava ainda que a entidade mantinha pessoas enfermas sob seus cuidados, demonstrando que sua atuação ultrapassava o campo exclusivamente ritual ou filosófico e fazia parte da vida comunitária da cidade. Esse registro jornalístico é especialmente valioso porque confirma a presença institucional da Associação poucos anos depois de sua fundação e mostra que ela já possuía visibilidade pública em Alto Paraíso durante a primeira metade da década de 1990.
A Associação Holística Vale do Sol representa, portanto, um capítulo importante da transformação cultural de Alto Paraíso. Se iniciativas anteriores, como a Fazenda Bona Espero, a Cidade da Fraternidade e o Projeto Rumo ao Sol, haviam preparado o terreno para a chegada de pessoas em busca de experiências comunitárias, espirituais e alternativas, os anos 1990 assistiram à multiplicação e à maior visibilidade desses grupos.
A Vale do Sol tornou-se uma expressão particularmente emblemática dessa fase, reunindo referências espíritas, ideias ufológicas e concepções holísticas em um mesmo espaço. Sua presença atravessou as décadas: em 2019, por exemplo, uma pesquisa da UNESP ainda registrava a Associação Holística Vale do Sol como espaço cultural utilizado para ensaios e atividades artísticas.
Sua trajetória ajuda, assim, a compreender como Alto Paraíso passou de pequena cidade do interior goiano a um dos mais conhecidos centros brasileiros associados à espiritualidade, ao esoterismo e às culturas alternativas.
1992: a Fundação Arcádia e o Grande Conselho Intergaláctico
Em 1992, instalou-se na região a Fundação Arcádia, também chamada em registros de Irmandade da Luz Solar. Sua filosofia combinava a Grande Fraternidade Branca Universal com a crença em um Grande Conselho Intergaláctico da Paz.
O objetivo declarado era contribuir para o despertar da consciência cósmica. Segundo a pesquisa histórica, o grupo promovia palestras, cursos, meditações, vigílias para possíveis contatos extraterrestres e terapias apresentadas como relacionadas a conhecimentos extraterrenos. No mesmo ano, integrantes organizaram em Alto Paraíso o “I Encontro dos Construtores da Nova Era, os Filhos do Sol”, reunindo participantes interessados em esoterismo, metafísica e ufologia.
A Fundação Arcádia acabou deixando de atuar como grupo organizado, mas é importante porque evidencia o grau de fusão alcançado entre espiritualidade e extraterrestrialismo nos anos 1990. O ET da Chapada não era necessariamente imaginado como invasor; frequentemente aparecia como mestre, irmão cósmico ou representante de uma humanidade mais evoluída.
1993: nasce a Gota Sat Som
Em 1993, cinco migrantes meditadores identificados em pesquisa histórica como Punia, Lim, Yashem, Zaque e Chandra construíram a Gota Sat Som, um dos edifícios espirituais mais reconhecíveis da região.
Sua forma arquitetônica de gota foi concebida para produzir uma acústica particular e favorecer experiências de silêncio, escuta e meditação. A construção teria sido inspirada em orientações relacionadas ao universo de Osho e no uso do som como instrumento contemplativo.
Diferentemente de grupos que desapareceram quase sem deixar vestígios, a Gota tornou-se parte da paisagem simbólica de Alto Paraíso. Sua existência ajuda a entender como o misticismo local ultrapassou crenças privadas e passou a modificar a estética do território.
Edifícios passaram a ser desenhados como templos, domos, gotas, pirâmides ou portais; pousadas adotaram referências mitológicas; praças receberam símbolos alquímicos; e o visitante começou a perceber a cidade inteira como uma espécie de cenário construído pelo encontro entre diversas mitologias.
1993: a Rede N.A.V.E. e a ideia de que “nossas almas vieram das estrelas”
Ainda em 1993, o levantamento histórico registra a chegada da Rede N.A.V.E. — “Nossas Almas Vieram das Estrelas”, sociedade de orientação esotérica e ufológica originada no Rio de Janeiro. O próprio nome resume uma vertente que se tornaria muito visível no imaginário da Chapada: a convicção de que a origem ou evolução da humanidade estaria ligada a civilizações extraterrestres.
O grupo interpretava a passagem da Era de Peixes para a Era de Aquário como uma transição de grandes proporções e incorporava elementos apocalípticos a essa mudança. Ideias desse tipo circulavam internacionalmente na Nova Era, mas encontraram em Alto Paraíso um contexto especialmente receptivo.
O céu com pouca poluição luminosa, o isolamento, a presença de comunidades espiritualistas e as narrativas sobre cristais formavam um ambiente perfeito para vigílias e relatos de luzes inexplicadas. Isso não constitui evidência de visitação extraterrestre, mas constitui um fato cultural: a ufologia passou a fazer parte da identidade pública da cidade.
1995: a Fazenda Osho Lua e os sannyasins
Em 1995, aparece formalmente na cronologia pesquisada a Fazenda Osho Lua, ligada aos ensinamentos de Bhagwan Shree Rajneesh, posteriormente conhecido como Osho. O mestre indiano havia morrido em 1990 e nunca viveu na Chapada; sua influência chegou por meio de discípulos, os chamados sannyasins.
Esses seguidores combinavam meditações — entre elas práticas ativas desenvolvidas no movimento de Osho —, trabalho comunitário, terapias e experiências de desenvolvimento pessoal. O músico e ambientalista Nivedano, que havia integrado a comunidade de Osho e retornado ao Brasil em 1991, também se estabeleceu em Alto Paraíso e participou da vida ambiental da região.
A presença oshoísta tornou-se uma das referências mais conhecidas dos anos 1990. É importante, contudo, corrigir uma lenda que às vezes aparece na memória oral: raspar a cabeça não era uma regra geral dos discípulos de Osho. O Santuário Osho Lua continua existindo atualmente como espaço de retiros e experiências de bem-estar.
Meados dos anos 1990: quando mais de quarenta comunidades conviviam na cidade
Em 1995, uma reportagem da Folha de S.Paulo descrevia Alto Paraíso como um “templo esotérico” e mencionava 42 comunidades. Dois anos depois, outra reportagem falava em cerca de quarenta grupos religiosos e esotéricos.
Os números devem ser interpretados como retratos daquele momento, não como cadastro permanente, pois muitas comunidades eram pequenas e voláteis. Ainda assim, ilustram a dimensão alcançada pelo fenômeno. Em uma pequena cidade do interior de Goiás conviviam espíritas, orientalistas, meditadores, terapeutas, estudiosos de cristais, ufólogos e comunidades que criavam seus próprios sistemas espirituais. P
rofissionais liberais também migravam para a região e abriam negócios. Restaurantes, pousadas, lojas de cristais, terapias e espaços de meditação criaram uma economia associada à nova população. O misticismo deixava de ser apenas experiência privada e se transformava em marca turística de Alto Paraíso, algo que a imprensa nacional ajudou a amplificar.
O Jardim de Maytrea, o Morro da Baleia e a sacralização da paisagem
Nos anos 1990, não eram apenas templos que adquiriam significado espiritual. A própria natureza passou a ser interpretada como arquitetura sagrada. O Jardim de Maytrea, na estrada para São Jorge, tornou-se um dos símbolos máximos dessa percepção. Seu nome ecoa Maitreya e o universo espiritual que marcou aquela geração, embora seja prudente não atribuir sua denominação a um único grupo sem documentação específica.
O Morro da Baleia, os campos, veredas e montanhas do entorno passaram a servir de cenário para meditações, fotografias e narrativas sobre portais. O mesmo ocorreu com o Vale da Lua e diversas cachoeiras. Na religiosidade New Age, elementos naturais eram frequentemente percebidos como manifestações de uma inteligência maior.
Assim surgiu uma paisagem dupla: o ecólogo observava Cerrado, cursos d’água e formações rochosas; o buscador podia enxergar chakras, portais e sinais cósmicos. Ambas as leituras tiveram consequências concretas sobre o turismo, ainda que apenas a primeira pertença ao campo científico.
Ufologia, discos voadores e a estética extraterrestre de Alto Paraíso
A fama ufológica cresceu tanto que deixou marcas físicas e comerciais na cidade. Imagens de discos voadores começaram a aparecer em fachadas, portais, placas, pousadas, eventos e estabelecimentos. Histórias de luzes no céu passaram a circular entre moradores e visitantes. Alguns grupos realizavam vigílias; outros interpretavam extraterrestres como seres espiritualmente avançados.
Em 2005, a Folha registrava que Alto Paraíso já era amplamente conhecida pelos relatos de ETs, pelo Paralelo 14 e pelos cristais. Pesquisadores posteriormente analisaram essa estética como parte do “reencantamento” urbano da cidade: mesmo quem não acreditava em naves podia consumir a iconografia como humor, turismo ou identidade local.
Essa dimensão é importante porque mostra como uma crença pode sobreviver mesmo quando deixa de depender de adesão literal. Hoje uma escultura de extraterrestre pode representar, simultaneamente, espiritualidade para uns, folclore para outros e simplesmente uma fotografia divertida para turistas.
1999: Grupo Deus Mãe, Estação Terra e o ambiente pré-milênio
No final da década de 1990, novas comunidades continuavam chegando. O levantamento acadêmico registra em 1999 o Grupo Deus Mãe — GDM, constituído por famílias comunitárias de orientação cristã, espiritualista e mediúnica, e também a Estação Terra, ligada a práticas energéticas, chakras e terapias de vidas passadas. Ao mesmo tempo, a ansiedade mundial em torno da chegada do ano 2000 intensificava previsões religiosas e esotéricas.
Para Alto Paraíso, essa atmosfera era especialmente poderosa. A cidade já possuía quase duas décadas de discursos sobre Terceiro Milênio, transição de eras, Grande Fraternidade Branca, extraterrestres e missão espiritual do Planalto Central. Faltava apenas uma data capaz de reunir essas narrativas.
A passagem de 1999 para 2000 ofereceu exatamente isso. Pessoas que nunca tinham ouvido falar das pequenas comunidades locais passaram a conhecer Alto Paraíso como possível “refúgio” diante das transformações que alguns acreditavam estar próximas.
O ano 2000 e o primeiro grande “fim do mundo” de Alto Paraíso
A virada para o ano 2000 produziu um dos grandes booms místicos da história local. Não existia uma única profecia nem consenso entre os grupos. Alguns falavam em catástrofes naturais, outros em transformação vibracional, mudança da Era de Peixes para Aquário ou simplesmente nascimento de uma nova consciência.
A altitude do Planalto Central e a distância do oceano alimentaram a narrativa de que Alto Paraíso sobreviveria a enchentes ou alterações planetárias. A pesquisa histórica registra que a cidade ficou conhecida como possível “refúgio apocalíptico”, atraindo pessoas que buscavam segurança.
O acontecimento é revelador porque mostra como antigas ideias locais foram amplificadas por uma ansiedade global. O mundo obviamente não terminou, mas isso não destruiu o misticismo da cidade. As interpretações simplesmente mudaram: aquilo que deveria ter sido uma transformação física passou a ser descrito por muitos como transformação de consciência. A profecia fracassou; o destino espiritual, paradoxalmente, saiu ainda mais conhecido.
2001: a UNESCO muda o peso internacional da Chapada
Um ano depois da virada do milênio, a Chapada recebeu um reconhecimento de natureza completamente diferente. Em 2001, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, juntamente com o Parque Nacional das Emas, foi inscrito pela UNESCO como Patrimônio Mundial Natural.
A justificativa estava baseada na biodiversidade e na importância ecológica do Cerrado, não no misticismo. O reconhecimento consolidou internacionalmente uma nova imagem: a Chapada não era apenas terra de cristais e gurus, mas território de valor natural excepcional. Durante os anos seguintes, ecoturismo e turismo espiritual passaram a caminhar lado a lado. Essa combinação explica boa parte do sucesso posterior de Alto Paraíso.
Uma pessoa podia viajar buscando cachoeiras sem qualquer interesse esotérico; outra podia vir para meditar; uma terceira combinava as duas motivações. O resultado foi a passagem gradual de uma economia alternativa restrita para um destino turístico nacional de grande visibilidade.
Os anos 2000 ampliam ainda mais o mosaico espiritual
O início do século XXI não encerrou a chegada de novos movimentos. A cronologia acadêmica registra presença do Vale do Amanhecer a partir de 2002, da Oficina do Amor — Amigos de Sempre em 2004, da Igreja do Trance Divino em 2005 e de outros pequenos grupos ao longo dos anos seguintes. Alguns misturavam mediunidade, holismo e ufologia; outros incorporavam música eletrônica, dança e experiências de transcendência.
Também apareceram iniciativas locais envolvendo xamanismo contemporâneo e uso ritual de ayahuasca. Aqui é necessário fazer uma distinção histórica importante: isso não significa que Alto Paraíso tenha se tornado sede de um núcleo institucional da União do Vegetal ou de uma igreja oficial do Santo Daime como eixo de sua formação espiritual.
Pesquisas registram pequenos grupos e pessoas com vínculos ou referências ayahuasqueiras, mas não se deve confundir circulação de práticas com presença institucional das grandes religiões amazônicas.
2012: o calendário maia coloca Alto Paraíso novamente no centro das profecias
Nenhuma data reacendeu tanto a fama apocalíptica da Chapada quanto 21 de dezembro de 2012. A interpretação popular do calendário maia espalhou a ideia de que aquela data marcaria o “fim do mundo”. Especialistas em civilização maia repetidamente explicaram que se tratava do encerramento de um ciclo calendárico e não de uma profecia de destruição planetária, mas a cultura popular seguiu outro caminho.
Alto Paraíso voltou a aparecer em telejornais, revistas e sites como possível local de proteção contra uma catástrofe. A pesquisa de Pepita Afiune reuniu dezenas dessas manchetes. Curiosamente, moradores entrevistados relataram que o excesso de publicidade produziu efeito contrário ao esperado: algumas pessoas cancelaram viagens por medo de falta de comida, combustível ou hospedagem.
A estimativa de multidões não se confirmou. Assim como no ano 2000, o planeta continuou existindo; e novamente a Chapada incorporou a profecia fracassada à sua própria mitologia.
2012: o CEBB introduz uma comunidade budista estruturada
No mesmo 2012 em que a mídia falava em apocalipse maia, surgiu um projeto espiritual de natureza bastante diferente. Lama Padma Samten criou a aldeia do Centro de Estudos Budistas Bodisatva — CEBB Alto Paraíso, concebida como local de moradia, prática e estudo budista em uma área próxima ao Parque Nacional.
Ao contrário das profecias planetárias, a proposta está centrada na tradição contemplativa, na meditação, no estudo e na vida comunitária. A instituição informa atualmente possuir dezenas de refúgios residenciais e uma comunidade permanente. A chegada do CEBB simboliza uma nova fase do cenário espiritual da Chapada: movimentos com estruturas mais duradouras e práticas sistematizadas passam a conviver com a religiosidade fluida da Nova Era.
O misticismo de Alto Paraíso não desapareceu; tornou-se ainda mais plural, comportando desde ufólogos e terapeutas independentes até comunidades vinculadas a tradições religiosas estabelecidas.
Sri Prem Baba e o Novo Portal da Chapada
Em 2013, o levantamento histórico registra o Novo Portal da Chapada, associado a Sri Prem Baba, nome espiritual do brasileiro Janderson Fernandes de Oliveira. Ligado a ensinamentos de yoga, tradições indianas e desenvolvimento pessoal, Prem Baba conquistou grande número de seguidores no Brasil e no exterior e passou a realizar atividades na região.
Sua presença ajudou a trazer uma nova geração de buscadores, frequentemente menos interessada em profecias apocalípticas e mais voltada a retiros, meditação, relacionamentos, autoconhecimento e transformação emocional.
Nos anos seguintes, sua influência chegou também ao debate institucional da cidade: em 2017, o governo de Goiás divulgou um projeto para transformar Alto Paraíso em referência de sustentabilidade, cuja concepção havia sido discutida com o líder espiritual. Essa fase demonstra como o universo espiritual deixou de atuar apenas em comunidades isoladas e passou a dialogar com turismo, economia criativa, sustentabilidade e políticas públicas.
A década de 2010: de “cidade do fim do mundo” a destino de transformação
Depois de 2012, a imagem espiritual de Alto Paraíso começou a sofrer uma mudança sutil. Portais, ETs, cristais e profecias continuaram presentes, mas a linguagem predominante do mercado turístico passou progressivamente para termos como bem-estar, retiro, experiência, yoga, meditação, terapia, sustentabilidade e autoconhecimento. Essa alteração acompanha tendências internacionais do turismo espiritual.
Uma dissertação da Universidade de São Paulo dedicada especificamente a viajantes em busca espiritual na Chapada mostra que muitas pessoas procuram a região porque atribuem à natureza capacidade de favorecer introspecção e experiências transformadoras. O antigo “fim do mundo” deu lugar à “mudança de vida”.
Em vez de preparar bunkers para uma catástrofe planetária, visitantes passaram a reservar retiros para desconectar-se do trabalho, da tecnologia ou do estresse urbano. A estrutura narrativa mudou, mas o impulso humano permaneceu semelhante: sair do cotidiano para buscar algo que pareça maior do que ele.
Moinho, festivais e a continuidade da contracultura
O povoado do Moinho tornou-se outro espaço importante dessa história. Parte dos alternativos ligados às experiências iniciadas nas décadas anteriores migrou para lá, e o local passou a reunir moradores tradicionais, agricultores, terapeutas e pessoas interessadas em formas comunitárias de vida. Festivais como o Festival Internacional de Culturas Alternativas — FICA, realizado na região, mantiveram viva a herança da contracultura: alimentação comunitária, oficinas, yoga, arte, discussões ambientais, práticas espirituais e experiências coletivas.
Essa dimensão é importante porque a cultura alternativa de Alto Paraíso nunca se resumiu aos grandes gurus. Grande parte de sua história foi construída por pessoas anônimas que plantaram hortas, montaram pousadas, criaram escolas, organizaram festivais, trabalharam com permacultura ou simplesmente decidiram abandonar as metrópoles. Ao lado das grandes narrativas cósmicas existe uma história cotidiana, muito mais concreta, de experimentação social.
A espiritualidade transforma também a alimentação, a arquitetura e o comércio
Com o passar das décadas, ideias inicialmente restritas às comunidades alternativas tornaram-se parte da própria economia de Alto Paraíso. Restaurantes vegetarianos e veganos, produtos orgânicos, artesanato, lojas de cristais, yoga, massagens, terapias integrativas, astrologia e meditação entraram definitivamente na paisagem urbana.
A arquitetura também incorporou símbolos orientais, egípcios, alquímicos, medievais e ufológicos. Pesquisadores descrevem esse fenômeno como uma estética do “reencantamento”: o visitante percorre uma cidade onde referências religiosas e mitológicas aparecem fora dos templos, em hotéis, lojas, praças e fachadas. É justamente essa circulação livre de símbolos que diferencia Alto Paraíso de destinos de peregrinação associados a uma única religião.
Não existe um Vaticano da Chapada nem um guru que controle a cidade. Seu caráter espiritual nasce da justaposição de centenas de pequenas experiências, algumas duradouras e outras efêmeras.
2017 e a reafirmação da natureza como verdadeiro patrimônio da Chapada
Em 2017, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros teve seus limites novamente ampliados, continuando uma história de alterações territoriais iniciada desde sua criação em 1961. Essa expansão ocorreu num período em que conservação, incêndios florestais, pressão imobiliária e crescimento turístico se tornavam questões cada vez mais centrais.
Para a história mística, isso importa porque a natureza sempre foi o elemento que conecta todas as gerações de buscadores. Comunidades podem desaparecer, gurus podem perder seguidores e profecias podem não se realizar, mas as cachoeiras, campos e montanhas continuam sendo a principal razão pela qual novas pessoas chegam.
O reconhecimento pela UNESCO e a ampliação do parque reforçaram uma inversão interessante: aquilo que alguns espiritualistas descrevem como “sagrado” encontra proteção jurídica por razões ecológicas completamente independentes da crença. Ciência ambiental e espiritualidade podem interpretar a paisagem de maneiras diferentes, mas ambas contribuíram, por caminhos distintos, para uma consciência de sua singularidade.
As antigas comunidades desaparecem, mas seus integrantes permanecem
Uma característica recorrente dos movimentos espirituais de Alto Paraíso é sua volatilidade institucional. Cavaleiros de Maitreya, Fundação Arcádia, Cúpulas de Saint Germain e Estação Terra, entre outros, deixaram de funcionar como haviam funcionado originalmente. Pesquisadores encontraram, entretanto, antigos participantes ainda vivendo na região.
Isso talvez explique melhor a continuidade do misticismo do que qualquer instituição isolada. Uma comunidade pode acabar, mas seus integrantes abrem pousadas, tornam-se terapeutas, artistas, agricultores, professores ou comerciantes; casam-se, têm filhos e incorporam parte de suas experiências à cultura local. Assim, Alto Paraíso acumulou sucessivas camadas de migrantes espirituais.
A cidade atual contém vestígios humanos de movimentos que já não aparecem em nenhum mapa turístico. O fenômeno também mostra por que é difícil produzir uma lista definitiva de “seitas de Alto Paraíso”: elas nascem, mudam de nome, se dividem, desaparecem ou se transformam em projetos completamente diferentes.
Bona Espero e Cidade da Fraternidade atravessam as décadas
Enquanto muitos grupos foram efêmeros, duas experiências pioneiras demonstraram extraordinária continuidade. Bona Espero, fundada em 1957, permanece ativa e atualmente combina memória, educação ambiental e turismo regenerativo.
A Cidade da Fraternidade, criada em 1963, continua existindo como comunidade cristã-espírita e obra do Movimento da Fraternidade. Essa permanência oferece um contraponto à narrativa de que tudo na espiritualidade alternativa da Chapada é passageiro. Ambas surgiram antes da explosão New Age e construíram instituições concretas: escolas, casas, atividades sociais e infraestrutura comunitária. Também mostram que a história espiritual moderna de Alto Paraíso não foi iniciada por gurus carismáticos, mas por projetos coletivos de educação e fraternidade.
A posterior chegada de grupos esotéricos reinterpretou a região, mas encontrou um terreno social que já havia experimentado a ideia de comunidade espiritual organizada.
Osho Lua e CEBB mostram a continuidade das tradições orientais
No presente, dois exemplos ajudam a visualizar como a herança oriental permanece integrada ao território. O Santuário Osho Lua continua recebendo retiros e práticas de bem-estar, mantendo viva a memória da geração de sannyasins que se estabeleceu nos anos 1990.
O CEBB Alto Paraíso, por sua vez, mantém uma comunidade budista permanente, atividades regulares e retiros. Eles pertencem a histórias e tradições bastante diferentes, mas revelam algo comum: práticas de meditação e filosofias orientais deixaram de ser novidade exótica na cidade.
Na década de 1970, encontrar um praticante de uma tradição indiana em uma pequena cidade goiana podia causar enorme estranhamento. Meio século depois, yoga, mantras e meditação fazem parte da identidade turística de Alto Paraíso. Isso não significa que toda a população seja espiritualista — muito pelo contrário —, mas que a pluralidade tornou-se um traço estrutural do município.
Alto Paraíso hoje: turismo espiritual sem uma religião dominante
No século XXI, Alto Paraíso tornou-se menos uma “cidade de seitas” e mais um ecossistema de espiritualidades. Muitos visitantes não pertencem a nenhuma instituição. Podem participar de uma aula de yoga, visitar um templo budista, comprar um cristal, consultar um astrólogo e, no dia seguinte, percorrer uma trilha no Parque Nacional sem assumir identidade religiosa específica.
Pesquisas contemporâneas sobre turismo espiritual mostram exatamente essa característica: a experiência individual passou a ocupar lugar central. Essa fluidez explica por que antigos números como “quarenta seitas” não descrevem adequadamente a cidade atual.
Há comunidades estruturadas, mas existe também uma enorme rede de profissionais independentes, espaços de retiro e pessoas que constroem sua espiritualidade a partir de referências diversas. Alto Paraíso tornou-se um laboratório particularmente visível de uma transformação muito maior da religiosidade contemporânea.
O mito permanece porque também virou cultura
Hoje, poucos moradores precisam acreditar literalmente que discos voadores aterrissam na Chapada para reconhecer que a ufologia faz parte da cultura local. O mesmo vale para o Paralelo 14, os portais e os cristais.
Símbolos que nasceram dentro de sistemas específicos de crença tornaram-se patrimônio afetivo, humorístico, estético e turístico. Uma nave espacial na fachada de uma loja pode ser lida com devoção, ironia ou nostalgia. O Jardim de Maytrea pode ser um lugar sagrado para alguém e simplesmente uma paisagem extraordinária para outro. Essa capacidade de acomodar interpretações contraditórias talvez seja uma das características mais fascinantes de Alto Paraíso.
O mito não precisa ser cientificamente verdadeiro para ter efeitos históricos reais. Pessoas mudaram de cidade, compraram terras, fundaram comunidades, criaram negócios e reorganizaram suas vidas por causa dessas narrativas. Nesse sentido, estudar o misticismo da Chapada é estudar também migração, turismo, economia e transformação social.
Entre os moradores antigos e os que escolheram chegar
A transformação de Alto Paraíso não ocorreu sobre um território vazio. Famílias antigas, trabalhadores rurais, garimpeiros, moradores de São Jorge e comunidades tradicionais continuaram existindo enquanto sucessivas ondas de migrantes chegavam.
A relação entre “nativos” e “alternativos” teve momentos de colaboração e de tensão. Pesquisas registram que novos grupos frequentemente geravam empregos e iniciativas sociais, mas algumas comunidades mantinham certo isolamento e eram observadas com desconfiança.
Com o tempo, as fronteiras ficaram menos claras. Filhos de migrantes nasceram ali; moradores tradicionais passaram a trabalhar com turismo; antigos alternativos tornaram-se empresários ou gestores; e visitantes decidiram estabelecer residência permanente.
A Alto Paraíso contemporânea é resultado dessa mistura, não de uma substituição completa de uma população por outra. Isso também ajuda a evitar uma romantização excessiva da história: para algumas pessoas a Chapada foi busca espiritual; para outras sempre foi simplesmente casa.
O crescimento do turismo traz um novo desafio para o “paraíso”
A mesma fama que ajudou Alto Paraíso economicamente também produz desafios. O aumento do turismo e da migração pressiona habitação, água, saneamento, mobilidade, preços de imóveis e áreas naturais.
A cidade que durante décadas atraiu pessoas em busca de uma vida simples precisa hoje administrar os efeitos de ter se tornado um destino desejado. Há uma contradição interessante: quanto mais se divulga um lugar como refúgio de natureza e silêncio, maior o risco de que o sucesso turístico comprometa justamente essas características.
Essa questão aproxima novamente espiritualidade e ecologia. O discurso de “respeito à Terra” só adquire sentido prático quando se converte em preservação do Cerrado, gestão de resíduos, uso responsável da água e turismo sustentável. A UNESCO destaca que incêndios, expansão agropecuária, mineração, espécies invasoras e turismo descontrolado estão entre os desafios de conservação do Cerrado protegido.
O que a ciência confirma — e o que pertence ao universo das crenças
Um texto histórico sobre a Chapada precisa preservar sua magia sem transformar crença em fato científico. É real que existem grandes ocorrências de quartzo; não há evidência de que elas transformem Alto Paraíso em um amplificador espiritual planetário. É real que a região se situa próxima ao paralelo 14; isso não demonstra conexão energética com civilizações antigas. São reais os relatos de objetos luminosos e experiências subjetivas; isso não comprova visitas extraterrestres.
É real que muitas pessoas relatam transformação pessoal depois de visitar a Chapada; essa experiência não exige a existência de portais dimensionais para ter valor psicológico ou espiritual. Fazer essa distinção não empobrece a história. Pelo contrário: permite compreender como seres humanos constroem significado sobre paisagens extraordinárias. É justamente a convivência entre geologia, ecologia, memória, fé e imaginação que torna Alto Paraíso um fenômeno cultural tão singular.
Da terra prometida ao turismo de autoconhecimento
Ao observar toda a cronologia, percebe-se uma mudança de linguagem. A primeira metade do século XX falava em progresso, mineração e ocupação do interior. As décadas de 1950 e 1960 trouxeram educação, fraternidade e preservação. Nos anos 1970 e 1980 chegaram contracultura, comunidades e Nova Era. Nos anos 1990 dominaram cristais, ETs, Mestres Ascensionados, Era de Aquário e Terceiro Milênio.
O ano 2000 trouxe o refúgio apocalíptico; 2012 repetiu a fórmula através do calendário maia. Depois disso, ganharam força expressões como retiro, cura emocional, sustentabilidade, mindfulness, yoga e turismo de transformação. O conteúdo mudou, mas uma ideia permaneceu surpreendentemente constante: Alto Paraíso seria um lugar onde uma pessoa poderia começar novamente. Talvez essa seja a verdadeira linha que une grupos tão diferentes.
A Chapada não tem um único guru, uma única religião ou uma única história
É tentador resumir Alto Paraíso dizendo que ela é “a cidade dos místicos”, mas isso apaga exatamente o que a torna interessante. Não houve um fundador espiritual da cidade nem uma doutrina dominante. Sua identidade foi construída por sobreposição: povos indígenas, Kalunga, catolicismo popular, garimpeiros, esperantistas, espíritas, hippies, Hare Krishna, esoteristas, Cavaleiros de Maitreya, seguidores de Saint Germain, ufólogos, sannyasins de Osho, budistas, yogues, ambientalistas e milhares de buscadores independentes.
Algumas dessas tradições viveram lado a lado sem jamais se misturar; outras produziram combinações improváveis. E inúmeras pessoas que moram na região nunca participaram de nenhuma delas. Falar em “espiritualidade da Chapada” é, portanto, falar menos de uma religião e mais de um território que se tornou receptáculo de diferentes projetos humanos de transcendência.
O verdadeiro legado místico da Chapada dos Veadeiros
Talvez o aspecto mais extraordinário dessa história seja perceber que as profecias envelheceram, os grupos mudaram e muitas comunidades desapareceram, mas a ideia de Alto Paraíso como lugar de transformação sobreviveu a todos eles.
O mundo não acabou em 2000 nem em 2012.
Os extraterrestres não foram comprovados.
O Paralelo 14 não passa por Machu Picchu como repetem inúmeros guias.
Os cristais possuem propriedades físicas fascinantes, mas não existe comprovação de que emitam uma energia espiritual capaz de proteger uma cidade.
E, ainda assim, durante mais de meio século, milhares de pessoas chegaram à Chapada e realmente transformaram suas vidas.
Algumas encontraram religião; outras abandonaram religiões. Algumas criaram comunidades; outras começaram negócios ou famílias. Algumas foram embora; outras permaneceram por décadas. Talvez, portanto, o mistério mais interessante de Alto Paraíso não esteja escondido sob a terra nem vindo das estrelas. Ele está na capacidade que essa paisagem possui de fazer tantas pessoas olharem para a própria vida e imaginarem que ela poderia ser diferente
Referências bibliográficas e fontes consultadas
- AFIUNE, Pepita de Souza. “Lugar de outro mundo”: o reencantamento do mundo e as narrativas ufológicas em Alto Paraíso (GO). 2016. 167 f. Dissertação (Mestrado em Territórios e Expressões Culturais no Cerrado) – Universidade Estadual de Goiás, Anápolis, 2016. Esta foi uma das principais fontes utilizadas para a cronologia dos grupos espiritualistas, Cavaleiros de Maitreya, OMIBRAM, Solarión, Saint Germain, Fundação Arcádia, Rede N.A.V.E., Osho Lua, grupos dos anos 1990 e profecias de 2000/2012.
- AFIUNE, Pepita de Souza; OLIVEIRA, Eliézer Cardoso de. O Paraíso em Goiás: pioneirismo místico na Chapada dos Veadeiros. Fronteira: Journal of Social, Technological and Environmental Science, v. 4, n. 2, p. 171–182, 2015. DOI: 10.21664/2238-8869.2015v4i2.p171-182. Importante para compreender a formação de Alto Paraíso como polo de esoterismo e o processo de “reencantamento” da cidade.
- BORGES, Amanda Alves. “Essa experiência na Chapada dos Veadeiros transformou minha vida”: viajantes em busca espiritual na natureza, estudo sobre Alto Paraíso de Goiás. Dissertação (Mestrado em Turismo) – Escola de Artes, Ciências e Humanidades, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2022. Importante sobretudo para a fase contemporânea do turismo espiritual e da busca por experiências transformadoras na Chapada.
- LIMA, Luana Nunes Martins de. A constituição de um território identitário pela garantia dos direitos fundiários: o Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga. Sociedade & Natureza, Uberlândia, v. 25, n. 3, p. 503–512, 2013. Utilizada para contextualizar historicamente o território, a identidade e a formação das comunidades Kalunga no nordeste goiano.
- AMORIM, Cleyde Rodrigues. “Kalunga”: a construção da diferença. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002. Referência antropológica importante para compreender a formação identitária e a trajetória histórica das comunidades Kalunga.
- PREFEITURA MUNICIPAL DE ALTO PARAÍSO DE GOIÁS. História de Alto Paraíso de Goiás. Fonte institucional utilizada para a formação histórica do município, Comissão Cruls, emancipação, mudança do nome Veadeiros para Alto Paraíso, Bona Espero, Cidade da Fraternidade e chegada dos primeiros “buscadores” espirituais.
- BONA ESPERO. A nossa história. Alto Paraíso de Goiás. Fonte institucional da Fazenda-Escola Bona Espero, fundada em 1957 por esperantistas, utilizada para reconstruir uma das primeiras experiências comunitárias modernas da região.
- MOVIMENTO DA FRATERNIDADE ESPÍRITA – MOFRA. Localização da Cidade da Fraternidade – CIFRATER. Fonte oficial que registra a fundação da Cidade da Fraternidade em 20 de dezembro de 1963, na Fazenda Paraíso, em Alto Paraíso de Goiás.
- MOVIMENTO DA FRATERNIDADE ESPÍRITA – MOFRA. Objetivo da Cidade da Fraternidade. Fonte utilizada para compreender a proposta da CIFRATER como experiência comunitária cristã-espírita e seu próprio conceito de uma comunidade voltada ao “terceiro milênio”.
- MOVIMENTO DA FRATERNIDADE ESPÍRITA – MOFRA. História do Movimento da Fraternidade. Documento institucional utilizado para contextualizar a criação da CIFRATER e sua inserção na história do Movimento da Fraternidade Espírita.
- INSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE – ICMBio. Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Brasília: ICMBio. Fonte oficial para a criação do então Parque Nacional do Tocantins pelo Decreto nº 49.875, de 11 de janeiro de 1961, e para as posteriores alterações de limites da unidade de conservação.
- UNESCO – WORLD HERITAGE CENTRE. Cerrado Protected Areas: Chapada dos Veadeiros and Emas National Parks. Paris: UNESCO. Referência utilizada para o reconhecimento internacional da biodiversidade e do patrimônio natural da Chapada. A inscrição na Lista do Patrimônio Mundial ocorreu em 2001.
- CENTRO DE ESTUDOS BUDISTAS BODISATVA – CEBB. CEBB Alto Paraíso. Fonte institucional sobre a aldeia criada por Lama Padma Samten em 2012, sua localização, comunidade residente, templo, retiros e atividades de estudo e meditação.
- FOLHA DE S.PAULO. Alto Paraíso é um “templo esotérico”: cidade reúne mais de 42 comunidades. Folha de S.Paulo, 12 out. 1995. É uma fonte histórica particularmente valiosa porque documenta durante a própria década de 1990 a existência de dezenas de comunidades, o Parque Solarión, o turismo esotérico e a associação da cidade aos extraterrestres e ao “Terceiro Milênio”.
- FOLHA DE S.PAULO. Lugar atrai esotéricos e religiosos. Folha de S.Paulo, 20 jan. 1997. Reportagem contemporânea ao fenômeno, utilizada como documentação da multiplicidade de grupos religiosos e esotéricos que atuavam em Alto Paraíso nos anos 1990.
- FOLHA ONLINE. Esotéricos acreditam que Alto Paraíso é frequentada por ETs. Folha Online – Turismo, 4 nov. 2005. Utilizada principalmente para documentar a permanência, já no século XXI, das narrativas envolvendo extraterrestres, cristais e a identidade ufológica da cidade.
- CINEFEST SÃO JORGE. Chapada dos Veadeiros – São Jorge. Fonte utilizada para a história oral e comunitária da Vila de São Jorge, especialmente a ligação de sua formação com o garimpo de cristal e a posterior passagem para o turismo.
- VIVA CHAPADA DOS VEADEIROS. História da Chapada dos Veadeiros. Fonte complementar sobre a antiga Baixa dos Veadeiros, o ciclo do cristal e a formação histórica do povoado de São Jorge.
- TV BRASIL / EBC. Garimpo de Cristal – São Jorge Cavaleiro das Tradições. 2015. Registro audiovisual sobre os antigos garimpeiros, primeiros moradores e memória cultural de São Jorge, incluindo depoimentos da própria comunidade.
- AFIUNE, Pepita de Souza; OLIVEIRA, Eliézer Cardoso de. A estética de uma cidade reencantada: Alto Paraíso (GO) e o misticismo pós-moderno. Trabalho apresentado em evento científico da Universidade Estadual de Goiás, Pirenópolis, 2015. Importante para a discussão sobre a arquitetura mística da cidade — Gota, Cúpulas de Saint Germain, templos, símbolos ufológicos — e sobre como a espiritualidade modificou a paisagem urbana de Alto Paraíso.
VÍDEOS QUE VALEM A PENA ASSISTIR
GUIA DE INFORMAÇÕES EXTRAS
- Alto Paraíso fica à 240 km de Brasília. A melhor maneira de chegar a chapada é pegar um voo até o Aeroporto de Brasília depois pegar um ônibus ou alugar um carro ( https://www.rentcars.com/pt-br/?requestorid=602 ) e ir até a Alto Paraíso de Goiás.
- Transporte de Carro: Partindo de Brasília, pegue a BR-020 e GO-118.
- Transporte de Ônibus: Dirija-se até a rodoviária nova de Brasília e adquira passagem direto para Alto Paraíso de Goiás.
Um pouco sobre a região da Chapada dos Veadeiros
- Travessia Ecoturismo - 62-3446-1595
- Alternativas Ecoturismo - 62-3446-1000
- Ecorotas - 62-3446-1820
- Gustavo Guia da Chapada com carro 4X4: 011 97335-3870 - É um dos guias que indico
- Beto - Guia da Chapada: 62 99624-8766 - É um dos guias que indico
- Josnélio: Guia da Chapada: 062 9912-056 - É um dos guias que indico
- Antônia (Taxi Compartilhado): (Translado Brasília > < Alto Paraíso): (61) 9 9225-2180
- Alto Turismo: (62) 9 8176.5476 - altoturismo@hotmail.com
- Jeferson (Taxi Compartilhado): (Translado Brasília > < Alto Paraíso): (62) 9 9991-0025
- Paralelo 14 Turismo: (62) 9 8284-1308 | (62) 3446-1279 - contato@paralelo14.com.br
- Taxi Carrara: Taxi dentro de Alto Paraíso: Cachoeiras- Translado BSB > < Chapada: (62) 99980 9517 | 9 9980-9517
- Taxi do Rick (24h): (62) 9 9642 1910




































































































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